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Educação e Qualificação Profissional - 20/06/2007
Hildebrando Rodrigues Mota

Há muito tempo atuo na área de treinamento. Aliás, comecei a atuar nesta área quando a microinformática começou a invadir as empresas. Primeiro foram as agências de publicidade, que imediatamente trocaram os traços à mão pelos traços das impressoras. De uma leva só, as pequenas gráficas que operavam com tipógrafos deixaram de existir. Na área de publicidade, os layoutmen e pastupmen (acho que eram estes os nomes) tiveram que se adequar aos programas de editoração.

Logo em seguida, vieram os bancos. Todas as áreas ganharam microcomputadores com planilhas eletrônicas, processadores de texto, aplicativos de apresentação e bancos de dados. Seus funcionários tiveram que se adequar rapidamente à nova realidade. Imediatamente seguiram esta onda toda a indústria, o comércio e o restante da área de serviços. Quase que de uma hora para outra, toda empresa ou organização, por menor que fosse, estava sendo administrada por um bando de microcomputadores. Conectados ou não.

Os trabalhos, outrora manuais, foram automatizados. Quem se lembra da máquina de escrever eletrônica? Da calculadora? Do mimeografo (alguém sabe o que é isto)? E do telex, alguém aí tem idéia por onde anda?

Muitos dos trabalhos executados pelos departamentos que eu trabalhei, logo no início da minha vida profissional, hoje seriam facilmente executados por uma simples planilha eletrônica. As tarefas de um departamento onde trabalhavam de 15 a 20 pessoas, passaram a ser executadas por uma simples planilha do MS Excel em poucos segundos. Considere-se que algumas destas tarefas eram realizadas em semanas árduas de trabalho. Exagero? De jeito nenhum. Meu exemplo é empírico.

Trabalhei em um grande banco no departamento de FGTS. Éramos em torno de 15 funcionários. Nosso trabalho consistia em cuidar da base de dados do FGTS dos funcionários do banco e das empresas que depositavam este recurso naquele banco. Apenas registrávamos a conta e cuidávamos de sua atualização e informações ao titular.

Quando o titular solicitava um extrato ou um simples saldo da conta, tínhamos que procurar a ficha, verificar a última atualização e aplicar os índices do período sobre o extrato ou saldo solicitado. Tudo era feito na mão. A ficha, o cálculo, a requisição pelo titular, o extrato ou saldo, o atendimento, etc. Quando o titular solicitava, ele tinha a resposta em uma semana. Este trabalho poderia ser feito sim em uma planilha do MS Excel. Bastaria cadastrar os titulares e registrar os depósitos mensais.

Como isto é baseado em um percentual do salário, é só informar o salário e com uma boa montagem de fórmulas, deixar que o MS Excel faça o cálculo. Quanto aos índices de atualização, estão disponíveis na Internet. Ligar uma planilha do MS Excel a um site não é coisa complicada. Daí para a emissão de extrato ou saldo é só um clique. O titular poderá receber a informação por e-mail enviado diretamente da planilha. Ou seja, nem precisa imprimir. Quer coisa mais ecológica que isto?

Muitas pessoas, principalmente os da esquerda (sempre ela) dizem que a informática é a desgraça do mundo. A automação está eliminando postos de trabalho. E se voltássemos àqueles tempos? O cálculo é simples e fácil. Tire a planilha desta pequena história e teremos de volta os 15 postos de trabalho do departamento de FGTS que trabalhei. Porém, a realidade não é tão fácil quanto o discurso. Assim como minha história de automação de uma área é verídica, a de retrocesso na automação também o é.

Poucos se lembram, mas no governo do Itamar Franco (aquele do topete), rolou o caso do Fusca e do Corsa. A VW havia encerrado a produção do querido Fusca e o desemprego na unidade de São Bernardo do Campo aumentava. O presidente, a pedido dos sindicalistas, teve uma grande idéia. Solicitou aos dirigentes da VW retornarem a produção do fusca. Afinal, ao contrário destes veículos produzidos por robôs, ele utiliza mais homens hora em sua produção. Desta maneira, se todos comprassem o novo Fusca como antes, logo iria baixar consideravelmente o desemprego nesta região. Coisa de gênio. A produção do querido fusca foi retomada. Postos de trabalho seriam reativados. No final, o carrinho saiu da linha montagem para as concessionárias ao preço de U$ 7.500,00. Em seu relançamento o nobre presidente (com o costumeiro topete) desfilou dirigindo o novo rebento.

Até ganhou um da montadora. Ocorre que no mesmo período a GM lançou o Corsa. Quase que totalmente produzido por robôs. Em comparação com o fusca, utilizava um terço de homens hora na produção. Chegou às concessionárias com o preço idêntico ao do fusca.

Adivinha qual saiu mais das concessionárias? Pela precisão de suas linhas. Pela delicadeza de seu acabamento, somente conseguido por robôs, o Corsa chegou a ter fila de espera. O fusca? Bem, ficou na espera. Encalhou tanto que só era dado em promoções.

Como toda história, esta também tem uma moral que nos obriga a refletir sobre o que ocorre atualmente com o mercado de trabalho. Apertar parafusos, datilografar, carregar peso, efetuar quaisquer tarefas que possam ser automatizadas ou substituídas por máquinas, são situações não mais suportadas pelo mercado de trabalho. E quem decide isto não é um governo ou um administrador. É o consumidor.

Quando ele procura uma mercadoria na prateleira, ele procura aquela com melhor relação custo-benefício. Ou seja, a mais barata e com melhor qualidade. Isto só pode ser produzido por processos automáticos. Não há saída, não há volta.

Não é apenas automação pura a simples. É ganho de produtividade. Ou seja, você concluir um processo em menos tempo e com o maior índice de correção possível. O simples ato de aprender a calcular tudo no MS Excel ao invés de calcular na HP e lançar os dados na planilha, já representa um ganho de processo. Conectar as informações do pacote Office é outro ganho inestimável de tempo e economia processos.

Acima de tudo, o que temos que fazer, e urgente, é melhorar a qualidade de ensino. Desde o básico. Pois o modelo que temos atualmente não serve. Professores desmotivados e desqualificados. Para piorar, mal remunerados. Alunos com excesso de liberdade, falta de educação e ignorância. Currículos ultrapassados. Ensino sendo tocado com objetivos políticos.

A área de TI tem uma grande demanda por profissionais. Porém, existem muito poucos com qualidade para preencher estas vagas. Devido ao nível de ensino que estas últimas gerações estão recebendo, os profissionais que estão entrando no mercado de trabalho, apresentam um nível cada vez mais baixo. E não é só na área de TI. Em todas as áreas.

No ano passado li uma reportagem em que o dono de uma padaria lamentava por não conseguir preencher uma vaga de atendente de balcão. O funcionário precisaria apenas anotar pedidos. Ele já estava com esta vaga aberta há meses. Todos que ele havia entrevistado até o momento não conseguiam executar esta simples tarefa. Uma empresa de call center não conseguia preencher metade de suas vagas por não encontrar profissionais qualificados. O único pré-requisito era falar o português básico.

Enfim, precisamos nos atentar que esta é a era da informação. É a era do conhecimento. A riqueza esta no conhecimento. Quanto mais a pessoa o acumular, mais riqueza ela terá. O que mais me preocupa é que a disparidade de conhecimento está aumentando nos extremos das classes sociais. E o governo, que deveria atentar para este fato, está apenas tentando produzir novos fuscas.